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‘É preciso separar o erro da má intenção’, diz Maju Coutinho sobre notícias falsas

A apresentadora do Jornal Hoje, da TV Globo, os colunistas Flávia Oliveira, Merval Pereira e Ascânio Seleme e a editora executiva Maria Fernanda Delmas participaram do debate "Jornalismo para democracia", em comemoração pelos 95 anos do GLOBO. Jornal celebrou aniversário com uma série de lives ao longo da semana

Flávia Oliveira, Maju Coutinho, Maria Fernanda Delmas, Merval Pereira e Ascânio Seleme: jornalismo em debate Foto: Reprodução

O Globo

O jornalismo, mais do que nunca, tem a missão de defender as instituições e, diante de um mundo em intensa transformação, com a crise gerada pela pandemia do novo coronavírus, tem o compromisso com o debate de alguns temas, como ciência, diversidade e educação, incluindo a educação para a informação, em meio ao avanço das “fake news”.

Não basta informar, é preciso desmontar as “fake news”. É preciso inclusive repensar o uso dessa expressão, pois muitas vezes lidamos com notícias fraudulentas, produzidas intencionalmente para arranhar reputações, e não apenas com notícias falsas que podem ser fruto de um erro.

Estes foram alguns temas abordados no debate on-line “Jornalismo para sociedade — Fake news, mentiras e desinformação”.

O evento, em comemoração aos 95 anos do GLOBO, contou com a participação da jornalista e apresentadora do Jornal Hoje, da TV Globo, Maju Coutinho, e dos colunistas do GLOBO Flávia Oliveira, Ascânio Seleme e Merval Pereira. A mediação do encontro foi feita pela editora executiva Maria Fernanda Delmas. O jornal promoveu uma série de debates on-line ao longo desta semana.

O PAPEL DO JORNALISMO

Maju Coutinho chamou atenção para o caráter cada vez mais essencial do jornalismo, neste momento de massificação de distribuição de “fake news”. Algo que nunca se viu antes, segundo ela:

— No tempo de excesso de informação, de veiculação de notícias fraudulentas, o papel do jornalismo é cada vez mais fundamental.

A colunista Flávia Oliveira citou dois desafios da profissão neste momento. O primeiro é o da defesa da democracia, uma conquista que parecia consolidada desde a Constituição de 1988:

— As instituições e a democracia, que pareciam sólidas, dão muitos sinais de fragilidade, com o Executivo, obviamente, mas no Legislativo e no Judiciário também.

O outro desafio do jornalismo é produzir conteúdo, a partir do confinamento:

— Numa situação absolutamente inédita, estamos conseguindo.

Flávia destacou ainda o compromisso do jornalismo com a ciência neste momento de pandemia.

ATAQUES PESSOAIS

Os participantes falaram também sobre os ataques que sofrem nas redes. Flávia Oliveira mencionou ações que parecem coordenadas nesse sentido:

— O ataque que você sofre no Twitter vai para o Instagram, vai para Facebook… Parece muito nítido que há uma ação coordenada que precisa ser combatida à luz do crime organizado. O objetivo dessas organizações é silenciar.

Do ponto de vista pessoal, ela afirma que esses ataques são muito sofridos. Se o profissional não estiver preparado do ponto de vista emocional e profissional, isso pode levar a um enfraquecimento do seu exercício profissional. O jornalista se constrange e se retira dos ringues nos quais se transformaram as redes sociais.

Maju Coutinho detalhou um pouco do que já passou — inclusive a série de ataques racistas em 2015 —, lembrando que é muito importante ter uma retaguarda de apoio. Ela contou que, em plena pandemia, já foi alvo de ao menos quatro notícias fraudulentas. Uma delas dizia que a apresentadora estava na praia em plena quarentena. Já outra informava que ela teria dado uma entrevista a um veículo português criticando o governo Bolsonaro. Nenhuma dessas notícias era verdadeira.

Para Maju, é preciso separar o erro da má intenção e repensar o uso do termo “fake news”:

— Carlos Eduardo Lins e Silva defende inclusive que não devemos traduzir “fake news” como notícias falsas, mas sim como notícias fraudulentas. O inglês permite isso. Um erro pode ser cometido e ser corrigido. Já a fraude, a “fake new”, é deliberadamente feita para arranhar reputações ou vencer eleições de maneiras ilícitas.

A RESPONSABILIDADE DAS REDES SOCIAIS

Ascênio Seleme lembrou ainda que jornalistas sempre serão atacados por aqueles que não gostam da verdade. Ele lembra, no entanto, que, com a tecnologia, há uma nova dimensão. Mais importante do que tentar enquadrar os autores das mentiras e ataques, é ir atrás das plataformas que permitem esses crimes e discursos de ódio.

— Facebook e Twitter relutam em se comprometer contra “fake news”. Essas plataformas se preocupam apenas com sua economia, com seus resultados — disse ele, lembrando que as empresas visam promover conteúdo, independentemente de sua veracidade ou função e não respeitam leis locais.

Merval Pereira lembrou que muitos viram um certo exagero na decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes em barrar contas de acusados de difundir “fake news” inclusive no exterior, mas que isso ocorre porque muitos desses acusados migraram para fora do país para tentar driblar a lei.

LIBERDADE DE EXPRESSÃO

A editora executiva do GLOBO, Maria Fernanda Delmas, mediadora do debate, levantou a questão sobre o desafio da imprensa de manter a liberdade de expressão ao mesmo tempo em que combate a indústria de “fake news”.

Na opinião de Merval, a pessoa não pode ser banida para sempre dos meios digitais, como o ministro do Supremo Alexandre Moraes quis impor:

— É uma punição completamente irrazoável, mas as pessoas têm que ser responsabilizadas pelos ataques criminosas.

Para ele, não é possível aceitar campanhas “organizadas, orquestradas, em todas as redes sociais contra a democracia, contra o Congresso, contra o Supremo”. O colunista lamentou o retrocesso que vive o país depois de um longo período de avanços. Mesmo com a descoberta de esquemas de corrupção, como o mensalão e do petrolão, o país avançou:

— Não era um retrocesso, porque a corrupção sempre existiu, ficou muito clara, evidente e organizada, mas a Justiça se organizou e atacou. Desde o mensalão, vínhamos evoluindo. Hoje, temos um governo que promove retrocesso.

Flávia lembrou o esforço atual de ter que explicar, didaticamente, o que foi a ditadura militar no Brasil:

— Isso é uma barbaridade. Estamos retrocedendo a ponto de instaurar uma pedagogia para explicar temas absolutamente superados e pacificados.

Maju defendeu que o trabalho contra as “fake news” é uma tarefa de todos, em multicamadas, cabendo não apenas aos jornalistas, mas também a educadores, legisladores, juízes e inclusive às plataformas de redes sociais.

Seleme, contudo, afirmou que a melhor solução é a responsabilização das redes sociais. Citando como exemplo um erro jornalístico — que pode gerar ação judicial e ressarcimento financeiro de quem foi atingido —, ele afirma que as plataformas precisam responder solidariamente por estas atuações criminosas.

O MAU EXEMPLO DOS GOVERNANTES

O debate também tratou de como maus exemplos de governantes pioram o cenário. Flávia Oliveira citou um levantamento da ONG Repórteres Sem Fronteiras que mostrou que o presidente Jair Bolsonaro fez 32 ataques diretos a jornalistas e veículos no primeiro semestre de 2019, e outros 21 no segundo semestre.

Os filhos do presidente fizeram o mesmo: o vereador Carlos Bolsonaro atacou a imprensa e seus profissionais 43 vezes no ano passado, o senador Flávio Bolsonaro fez 47 ataques e o deputado federal Eduardo Bolsonaro proferiu outros 67 ataques.

— Precisamos cobrar das autoridades um comportamento íntegro, ético e republicano — disse Flávia.

Seleme foi além e afirmou que os maus exemplos do presidente e de seus três filhos — chamado por ele de “três zeros”, em referência a como Jair Bolsonaro identifica numericamente seus filhos — atrapalham a construção da cidadania.

Merval Pereira lembrou que este é um fenômeno mundial e que o presidente Donald Trump conseguiu abalar as instituições em quatro anos. Da mesmo forma como vem acontecendo no Brasil e em outros países:

— No passado dizíamos que um país podia passar do subdesenvolvimento ao desenvolvimento em 30 anos. É verdade. Mas também pode retroceder muito em quatro ou oito anos.

Para Maju, a luta contra a desinformação precisa ser feita com as mesmas armas daqueles que pretendem gerar desinformação:

— É preciso usar de linguagem chamativa e mecanismos como vídeos, sons e formas atrativas.

VISÕES DO FUTURO

Nessa nova realidade que se impôs, o jornalismo terá que ser cada vez mais diverso, como afirmou Flávia Oliveira, para dar acesso a todos os públicos. Esse será um atributo imprescindível:

— Não vai ter jornalismo no futuro sem reconhecer a potência que a diversidade traz. E temos que ter coragem e firmeza na defesa de valores democráticos, no combate à desigualdade como papel social do jornalismo.

Para Merval, a pandemia deixou claro a necessidade de os países investirem em ciência e tecnologia, setores nos quais o Brasil aplica pouco. Ele citou ainda a saúde, setor que tem o SUS como exemplo, a melhoria da educação e também o combate à desigualdade:

— Esses temas vão ter de dominar o jornalismo. É assim que uma sociedade moderna se forma, com base nesses pilares. O país só vai para a frente se esses setores evoluírem.

Discutir distribuição de renda e diversidade “é urgente e para ontem”, completou Ascânio Seleme. Olhando para o futuro, ele afirmou ser otimista. Acredita que o jornalismo tem a missão de ajudar a contextualizar e hierarquizar notícias. O colunista defende que o jornalismo precisa se preocupar mais com a qualidade, o contexto e a análise do que apenas com a velocidade do “furo” jornalístico — jargão para informação em primeira mão ou exclusiva.

Maju, em suas considerações finais, defendeu que as redações precisam ser espaços plurais e abertos. Para ela, é importante dar espaço a jovens e minorias, mas também preservar profissionais mais experientes, que servem como norte no jornalismo.

 

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