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Carequinha, o palhaço que fez rir crianças e adultos por mais de oito décadas

Nascido no circo de seu avô, George Savalla Gomes, que morreu há dez anos, assumiu o personagem ainda menino, consagrando-se no picadeiro, no rádio e na TV

Graça. Palhaço Carequinha: humor infantil e regras de conduta para as crianças Divulgação / Arquivo
Matéria de O Globo de 04/04/2016
César Tartaglia

Mesmo no auge da fama, quando – sem o aparato da TV e fazendo da gaiatice ao vivo a sua própria mídia – botava os guris de todo o país para cantar “O bom menino não faz pipi na cama/O bom menino faz sempre as lições”, Carequinha não quis se mudar de São Gonçalo. Além de razões sentimentais, a arraigada opção pela vida na cidade que o adotou depois de ter saído de Rio Bonito para os picadeiros de todo o Brasil tinha também uma motivação de ordem prática. Ele morava a menos de 500 metros do Cemitério de São Gonçalo e, palhaço, gostava de brincar quando lhe perguntavam por que não saía da cidade: “Já estou pertinho do cemitério, e quando morrer é só atravessarem a rua comigo”.

Por um desses desvios da vida, George Savalla Gomes, que morreu em 5 de abril de 2006, aos 90 anos, depois de se sentir mal em sua casa no bairro Zé Garoto, não foi enterrado no cemitério que citava em suas brincadeiras com os amigos. Uma ironia ainda maior estava reservada para o derradeiro acolhimento do maior palhaço do Brasil: seu corpo foi levado para o túmulo da família no Cemitério de São Miguel, que foi construído às pressas no início da década de 60 para que ali fossem enterradas as cerca de 400 vítimas do incêndio do Gran Circo Americano, uma tragédia que abalou Niterói e o país em dezembro de 1961.

George já nasceu praticamente Carequinha: seus pais, Elisa Savalla e Lázaro Gomes, eram trapezistas e sua mãe – reza a lenda, por menos crível que possa parecer – teria sentido as dores do parto, em 18 de julho de 1915, no picadeiro do Circo Peruano, que era de seu avô José Rosa Savalla. Seu pai morreu quando ele tinha 2 anos e foi seu padrasto, Ozorio Portilho, segundo marido de Elisa, quem o encaminhou para a vida em cena. Quando o pequeno George tinha 5 anos, Portilho plantou-lhe uma peruca de careca na cabeça e determinou que, a partir de então, seria o palhaço Carequinha. Começava ali uma trajetória responsável por incontáveis momentos de pura alegria que se espalharia por um Brasil que se permitia rir de ingênuas tiradas, quedas, sustos, palmadas de mentirinha e de um bom número de canções gravadas por ele com uma mistura de humor infantil e regras de conduta.

No auge do sucesso, o maior palhaço do país arrastava, com seus companheiros de picadeiro Fred, Zumbi e Meio-Quilo, 50 mil pessoas para seus shows no Ginásio Caio Martins, em Niterói. Seu bordão (“Tá certo ou não tá, garotada?”) era respondido em uníssono pela gurizada: “Tá!”. Em 1951, tornou-se o primeiro palhaço a ter um programa de TV, o “Circo Bombril”, transmitido por 16 anos pela extinta Tupi. Da televisão ele saiu definitivamente em 2001, depois de participar da “Escolinha do professor Raymundo”, na Globo – mas antes, na década de 80, comandou na também extinta Manchete o “Circo Alegre”, que antecedeu o lançamento do “Clube da Criança”, que lançou Xuxa como apresentadora e incorporou muitas das características do programa do veterano palhaço.

Carequinha, que em 1965 foi eleito na Itália o maior palhaço do mundo, era amigo de Juscelino Kubitschek e se gabava de ter apresentado a música “Peixe vivo” ao presidente, que se transformou em um hino a JK. Gravou 26 discos e participou de cinco filmes, teve quatro filhos, quatro netos e quatro bisnetos. Em 2003, cunhou uma frase que hoje soa como epitáfio: “O palhaço típico morre comigo”.

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